ZAPPING

Almocinho na Associação Cabo-Verdiana, que é o mesmo que dizer muita cachupa para comer e muita coladeira para dançar e todos, na mesa, evitando falar da última excitação ensaística de Vítor Bento (“Economia, Moral e Política”*, algo que dificilmente coexiste em Portugal) e da chegada dos gajos do FMI (em boa altura, porque têm estado uns ótimos dias de praia), mas, às duas por três, alguém recordava o episódio épico da batalha campal entre a marcha da Mouraria e a claque de Carnide, com duas anãs metidas ao barulho, sem que houvesse Santo António que lhes valesse, e, com tudo isto, era chegada a hora danada de voltarmos ao trabalho e, pronto, todos nós lá voltámos, às respetivas labutas – e já vos falei dos ótimos dias de praia que têm estado? Ai, ai (longo, longo suspiro, ao terminar).

* Edição Fundação Francisco Soares dos Santos, 2011.

Escrito por Fernando Chambel

14/04/2011 em 17:47

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– E já vos contei a estória da baleia? – perguntava Ismael a uma chusma ruidosa de marinheiros que, a um canto do bar, se entretinha a arrotar cerveja e a cuspir cascas de tremoços.

Escrito por Fernando Chambel

13/04/2011 em 18:45

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Olha, Marlene, estou com um tramado desejo de pousar os olhos na tua pele incandescente. Já não encontro a voz para te cantar na madrugada. Sou um gajo linear, com alguns erros de sintaxe e uma ortografia rudimentar, e as minhas palavras morrem lentamente quando me deito numa cama de aluguer, a ver se a chuva passa, esperando que os lençóis não me causem alergias.

[de uma leitura de “Marias Pardas”*, de António Ferra, deixada no teu gravador de mensagens]

* Edição “&Etc”, 2011.

Escrito por Fernando Chambel

08/04/2011 em 18:46

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Já tínhamos saudades. Oficina do Livro reedita “Os Sete”. É a primeira notícia decente desde que pedimos ajuda ao FMI.

Escrito por Fernando Chambel

08/04/2011 em 9:59

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Da Comissão Warren (volume 9, anexo B, biblicamente intitulado “O Martírio de Dallas”, por um relator evangélico do Texas): “A fotografia foi tirada às 12:30 p.m. CST, hora oficial dos disparos. O fotógrafo declarou que, para além dos três estarolas, havia ainda um quarto: Lee Harvey Oswald. Sobre as particularidades estéticas do vestido, e apesar das muitas insistências desta Comissão, foi impossível apurar a identidade do estilista.”

Escrito por Fernando Chambel

07/04/2011 em 10:05

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Era por de mais conhecido o mau feitio de Cajó, que fazia estremecer todo o recreio da escola.

– Pegas no livro e levas uma sova! – ameaçava Cajó, que só tolerava a iniciação à “Gina” e as cowboyadas do “Mundo de Aventuras”.

Dez advertências, cinco repreensões e outras tantas suspensões não demoveram Cajó de dar caça à livralhada maçuda. Foi expulso da escola. Cajó não protestou, desapareceu apenas. E a memória das suas sovas foi-se desvanecendo com a cadência dos anos. No outro dia, vimo-lo na televisão, anunciando-se às artes e ao mundo com palavras de esperança. Cajó imperava, decretava e até citava Kant. Era Senhor Ministro, tinha chofer à porta e mandava na Cultura!

Uma respeitável homenagem a Mário-Henrique Leiria.

Escrito por Fernando Chambel

06/04/2011 em 18:56

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Breve passagem pela banca dos jornais para comprar cigarrinhos e ler as novidades, que não são nenhumas, afinal, a pátria agoniza, o prognóstico é reservado, teme-se que entre em coma e que fique ligada ao ventilador da ajuda externa. O senhor dos jornais diz que isto está mau, muito mau, que vem aí o FMI e o fim do mundo, como já agourava o Bandarra, e eu abano a cabeça e digo que sim, que sim, e só penso no meu pobre Benfica e no péssimo campeonato. Olhe, digo eu ao senhor dos jornais, levo esta nova revista, a “Total Film”, para desanuviar um pouco, sempre fala de cinema e distrai-me da política e das preocupações, em geral, mas rapidamente me calo, porque nela encontro Pedro Passos Coelho a falar dos filmes da sua vida e a destacar “2001: Odisseia no Espaço”, o que não deixa de ser uma excelente metáfora desta sociedade alienígena, que pensa um dia governar.

Escrito por Fernando Chambel

06/04/2011 em 11:00

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À vista do crucifixo, o senhor Conde ficou horrorizado e, de dente ainda aguçado, pediu mil desculpas, agitou as asas e bateu em retirada pela janela do quarto. Na noite escura, exasperava:

– Maldito rabi, que já nem sabe a quem é que aluga a casa!

E foi dar dentadinhas a outro lado.

Escrito por Fernando Chambel

04/04/2011 em 22:40

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E Carlos Vaz Marques foi entrevistar Umberto Eco, em Milão, e Umberto Eco disse-lhe que “estamos a enfrentar a verdadeira era do vazio” (“olha que novidade”, digo eu, “vivesse ele em Portugal e estaria era a falar de um voraz buraco negro”), mas, entre o dito e o não dito, o melhor é comprar, num destes dias, a revista “LER” de abril, que traz toda a entrevista, e, até lá, poupo nos cigarros e arranjo cinco euros, que é o preço da revista e das palavras sábias de Umberto Eco, sim, porque eu também ando à rasca, o que me lembra que, na próxima quinta-feira, a eterna pestanuda da Anabela Mota Ribeira estará à conversa, na Bertrand do Chiado, com o Afonso Cruz e com o Pedro Vieira, dois autores de uma geração que também se diz à rasca, enfim, andamos todos enrascados, é o que é, gravitando esse sinistro e voraz buraco negro que nos atrai ao abismo.

Escrito por Fernando Chambel

04/04/2011 em 18:21

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Ora, aí está, “O Cemitério de Praga”, o novíssimo livro de Umberto Eco, editado pela Gradiva, com uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes e alguns cadáveres num esgoto parisiense. A última vez que peguei em Umberto Eco foi para ler o saborosíssimo “Baudolino”, que uma alma caridosa me mandou à pressa para Timor, pela mala diplomática, a fim de me ocupar os tristes dias de varicela no longínquo país do sândalo. Agora, sempre que peço um check-up ao meu médico, ouço-o dizer com ironia:

– Aposto que saiu um novo livro do Umberto Eco!

Escrito por Fernando Chambel

04/04/2011 em 17:52

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Dava-se o surrealismo andaluz, ao som de uma guitarra que estremecia baixinho na rouquidão do gramofone.

– O importante é saberes que o desejo dos teus cabelos impera sobre a poesia do Lorca – disse a professora à pupila, num verso pendente, em que tudo era incógnita.

E mais não disse, porque a poesia faz-se de silêncios e de auto-descoberta, como dita o coração à revelia dos manuais.

Escrito por Fernando Chambel

30/03/2011 em 19:11

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Esclareça-se: “Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso” não é um livro sobre a atual classe política portuguesa; é o novo policial de Miguel Miranda, que recupera o detetive Mário França para investigar um atentado contra o Papa na cidade do Porto. Pelo meio, há um porta-aviões chamado Varyag, transformado em casino flutuante e que é palco do assassínio de Lady Godiva, uma bela e afamada cantora. Há também um submarino U-1277 da Segunda Guerra Mundial, afundado junto ao Porto pelo seu comandante. Se ficaram confusos, façam como eu: vistam a gabardina (o dia até está de chuva!), acendam o cachimbo e rumem à Bertrand do Chiado para resolver o mistério. Todos os suspeitos estarão presentes no lançamento do livro. Será esta tarde, pelas 18H30.

Escrito por Fernando Chambel

29/03/2011 em 11:15

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Acolhes-me em pianíssimo desassossego, nas tardes gélidas em que chego a casa. E há sempre um gato melancólico que se aninha, resfolegado, no calor das tuas saias. Falas-me de esperanças frágeis e de sonhos adiados, num blá-blá afrancesado de quem papa o Flaubert e a seguir o Balzac. E finjo que ouço, mas não ouço. Incomoda-me profundamente a lenta tortura do pinga-pinga da torneira que há semanas está por arranjar. Dava jeito um canalizador – dizes tu com o desdém de um conselho tão prático! Mas não sei se bata à porta do teu íntimo guarda-fato.

Escrito por Fernando Chambel

18/03/2011 em 18:01

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Penso que percebeste mal quando saltaste pela janela. O ponto ómega é apenas um livro (maldito Don DeLillo). E o chicote já cá estava – lembrança de um safari por terras do Tanganyika.

Escrito por Fernando Chambel

15/03/2011 em 18:35

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E o povo, pá?

 

 

E o povo saiu à rua com a alegria que costumava ter.

 

 

 

 

O camarada Estaline também passou por lá. Enfim… Adiante! 

 

 

 

 

Ser jovem é ser mais alto, é ser maior… Desculpa, Florbela. Espanca-me.

 

 

 

 

E pronto. Hoje foi o primeiro dia do resto das nossas vidas.

 

 

 

 

Escrito por Fernando Chambel

12/03/2011 em 20:10

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Miss Maio, Miss Junho, Miss Julho… Os meses passam loiros, platinados, em viagens longas e por estradas ínvias. No banco do lado, jaz uma sandes de couratos, comprada em Vilar Formoso e roída à pressa. E desespero com o seguro, que não me paga o arranjo do pára-brisas. É uma vida solitária e incerta, como se o futuro se desvanecesse a cada curva. Sobram-me as duas esperanças que trago tatuadas no braço: a eterna glória do Benfica e o meu amor por ti, Cátia Solange!

Escrito por Fernando Chambel

09/03/2011 em 19:18

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E, hoje, à noite, na Fnac do Colombo, lançamento do n.º 9 da revista “Bang!”. Apesar de ser carnaval, prometo não ir fantasiado de John Wayne – falta-me aquele andar gingão e o cretino do cavalo, que se julga culto, já me adiantou que fica no estábulo, a ler Kafka. Bang! Bang!

Escrito por Fernando Chambel

04/03/2011 em 16:46

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……………………………………………………

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te

importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas

de manhã cedo.

 

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o

direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa

evidência me matar agora.

 

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:

porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:

sabes que horas são?

……………………………………………………

[poema de José Luís Peixoto, de quem tanto lês, de quem tanto me falas...]

Escrito por Fernando Chambel

04/03/2011 em 11:34

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Fui ver o “Indomável” (“True Grit”) e gostei muito do filme, apesar de uma velhinha, coitadinha, que estava atrás de mim, poder não ser da mesma opinião – esteve mais de meia hora a ressonar no aconchego da cadeira, com o sonoro desdém que estas cowboyadas modernas lhe mereciam. É verdade que não havia índios em fúria nem diligências em chamas, mas havia uma série de dramas humanos, muito bem filmados e ironizados pelos irmãos Coen (a cena de um estranho urso, aparecido do nada e montado num cavalo, é verdadeiramente desconcertante e de antologia). Jeff Bridges bem merecia mais um óscar, mas acabou por perdê-lo para a gaga majestade de Colin Firth. Contudo, publicou no seu site um álbum de extraordinárias fotografias a preto e branco do “making of” de “Indomável”, em jeito de memória afetiva dos bons momentos que passou com a equipa de filmagens. Vale a pena dar uma espreitadela, mesmo para quem tenha passado o filme a ressonar: http://jeffbridges.com/true_grit_book

Escrito por Fernando Chambel

03/03/2011 em 19:02

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Foto: revista "LER"

Ainda me recordo deste número da revista “LER”, no inverno de 93. Coimbra era um fado gemido da minha vida de estudante, com apostas ao snooker na Associação Académica, caça aos caloiros no largo da Sé Velha, ceias a desoras na velha tasca do Pratas e algumas cenas de pancadaria no Clube de Rugby, com malta a entrar e a sair, devidamente aviada, como nos filmes do Buster Keaton. Quando os dias eram menos agitados, descia à rua Ferreira Borges para fazer penitência da alma e comprar, na Coimbra Editora, livros de formalistas russos e outras pílulas de teoria literária que me davam insónias em vésperas de exames. E, de quando em vez, encontrava por lá o senhor Miguel Torga, sempre de boina, sempre telúrico, perguntando gravemente pela venda dos seus livros. Também foi nesta editora que conheci uma namorada que me iniciou nas mortalhas dos cigarros de enrolar e que tinha o viciante hábito de molhar os lábios carnudos e tentadores enquanto me falava de jovens escritores em ascensão como os dois da foto: Rodrigo Guedes de Carvalho e José Riço Direitinho. Pedi-lhe, um dia, a revista emprestada e nunca mais a devolvi. Ela também não devolveu o meu coração!

Escrito por Fernando Chambel

01/03/2011 em 18:28

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Foto: jornal "i"

Roubei, por breves instantes, o jornal “i” ao segurança do trabalho para remendar um pouco da minha crónica ignorância sobre “o que está a dar” neste “país de bananas, governado por sacanas”, como já adagiava El-Rei D. Carlos, há século e meio atrás, citado por Raul Brandão. Em jeito de “mea culpa, mea maxima culpa” (já devidamente punida, com a flagelação da carne, na cela monástica em que habito), confesso que desconhecia a existência do blog “A Pipoca Mais Doce” (o mais lido em Portugal, segundo o jornal) e da sua autora, Ana Garcia Martins que, tolhida pelo pesadelo que são os seus 30 aninhos, debate problemas tão profundos como que sapatos calçar perante a vida complicada que é o mundo em geral – e fá-lo (atenção ao hífen!) de uma maneira “fashion, atual, cosmopolita, arrojada e moderna”. Também lançou um livro, com o mesmo nome do blog (a minha funcionária favorita da Fnac do Colombo anda-me a falhar), e já tem um CD (que o ingrato bexigoso da Fnac do Chiado, fã dos Moonspell, se esqueceu de me recomendar também). E, no “post” de ontem (sim, já fui cuscar!), a propósito do anúncio da intimissimi com Irina Shayk, dá prazer ver Ana Garcia Martins escrever, com viril arrojo, coisas deste género: “Sempre que vejo este anúncio dou por mim praticamente a babar para cima da televisão, e da Irina, e das mamas da Irina. Sim, sim, sim, é inveja. Mas porra, quem é que não inveja este corpaço?”. Afinal, temos gajo, perdão, gaja! Venham as minis e os tremoços!

Escrito por Fernando Chambel

25/02/2011 em 11:05

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Distraías-te com o último romance da Margarida Rebelo Pinto. O Ken saíra à rua para comprar cigarros e levara as chaves do ferrari.

Escrito por Fernando Chambel

22/02/2011 em 19:02

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O filme “Cisne Negro” é um turbilhão de ideias interessantes, mas pouco conseguidas. O realizador sabia que tinha, entre mãos, a trilogia perfeita de qualquer narrativa (o amor, o sexo e o terror), mas perde-se a encenar situações pontuais que quase descambam no mau gosto. É o caso do trabalhinho de casa, mais em jeito de fetiche do que de autodescoberta, recomendado pelo mestre à sua bailarina: “go home and touch yourself”. Temi que, no ardor do êxtase, a pobre rapariga começasse a levitar sobre a cama como no filme “O Exorcista”. O final é, por sua vez, apressado, confuso e pouco surpreendente (basta, aliás, conhecer como é que o próprio bailado termina). Mas, se alguma coisa se salva e fica na memória, é a extraordinária interpretação de Natalie Portman – ainda agora não me sai da cabeça o som ofegante e tenso da sua respiração e o cheiro suado (se tal se pode imaginar) dos seus demónios à flor da pele. Pode não ser uma boa bailarina, mas é uma grande atriz. Merece o óscar, certamente, mas o mesmo não poderei dizer do filme.

Escrito por Fernando Chambel

21/02/2011 em 19:10

Na categoria Zapping

Por o meu condomínio ser quase um dormitório de certa juventude profissional, os administradores andaram a pedir imaginativas sugestões para melhorar os dias de quem lá vive. Como sou um rapazinho de poucas palavras, limitei-me a enviar a presente foto, banhada em suspiros. Pois, hoje, no elevador, anunciava-se já, com o aparato de letras capitais, a exibição de uma série de filmes, em jeito de matinés de sábado, na sala do condomínio, a começar pelo irónico “Lost in Translation”. Não era bem o que eu queria, mas ficou a intenção.

Escrito por Fernando Chambel

18/02/2011 em 18:45

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Se quiseres atravessar as solidões áridas do Arizona e não tiveres nada para ler à noitinha, no aconchego cismado da tenda, toma o caminho da pequena cidade de Quartzsite e visita a livraria “Books Reader’s Oasis”, onde o dono, Paul Winer, te receberá com literária nudez e te aconselhará, com apreciável desconto, sobre todo e qualquer drama existencialista que queiras comprar.

Escrito por Fernando Chambel

17/02/2011 em 20:41

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Dora andarilha, alma inquieta, mulher das sete partidas. Escreves-me do Peru – esse país distante, gretado por vastas cordilheiras – e falas-me de uma mula que te carrega, com asinina paciência, por antigos trilhos incas, contornando a vertigem dos precipícios e alcançando a neve dos cumes, onde as nuvens te beijam. Segues ao encontro de Machu Picchu, o “velho pico”, e da cidade de pedra que nele se ergue, em ruínas de majestosa arqueologia. Não sei que vestígios de Túpac Amaru ou que cintilações do perdido tesouro imperial te levaram a empreender esta estranha aventura, mas, por favor, poupa o animal. Não é recomendável que rumes à arqueologia moderna em cima de uma mula esfalfada. Opções mais dignas não te faltam, desde um helicóptero alugado, entre Cuzco e Águas Calientes, até um comboio local, que percorre a doce sombra do Vale Sagrado. Li isto – confesso – num recomendável guia turístico que fui comprar à pressa à Fnac, ali, ao Chiado. E, na volta, ainda passei pela R. Garrett e pela velhinha Casa Pereira para comprar um bom conhaque e deliciar-me com as tuas cartas, no conforto do meu quarto. Não me peças, pois, que partilhe das tuas geografias incertas e das aventuras em ruínas seculares, arrastando-me no desconforto lombar de uma mula de carga. Quando muito, ouso perder-me em Sintra, lambuzando-me nas queijadas.

Escrito por Fernando Chambel

04/02/2011 em 20:17

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Um cão será sempre um cão. Dificilmente saberá comentar a dicotomia sujeito/objeto de Axel Hägerström para início de conversa.

Escrito por Fernando Chambel

19/01/2011 em 16:30

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Não fumes o apressado desejo de te sentires adulta e de quereres um sorriso que não condiz com o teu. Lava os dentes de manhã e ao deitar, faz o que a mamã e o papá te disserem e reza para que o resto da tua vida não seja esse abismo a preto e branco à beira do qual te deixas fotografar.

Escrito por Fernando Chambel

17/01/2011 em 10:52

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Para viajar deveria bastar-nos o nosso corpo; mas as noites reclamam um agasalho; a chuva, uma capa; o banho, um traje limpo; o pensamento, tinta e uma pena. E as prendas que não se podem recusar… As dádivas estorvam os viajantes.

 [da leitura feita por ela de um poema de Matsuo Bashô]

Escrito por Fernando Chambel

11/01/2011 em 16:41

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1. Little Havana, Miami, não engana ninguém: é um pequeno modelo de Havana contíguo à baixa de Miami. Nas ruas, ainda se podem ver velhos exilados vestindo as tradicionais guayaberas e remoendo injúrias a Fidel Castro. Mas os mais jovens preferem substituir o passado e o confronto políticos por iPhones, rumbas e mojitos. E siga a festa.

 

2. O meu guia, em Little Havana, é um verdadeiro “cigar aficionado” e promete mostrar-me como os charutos cubanos são feitos. Eu procuro o mito, meu caro guia, o mito dos charutos enrolados nas coxas de uma mulher. Sou um explorador de mitos. Também já procurei, em torno das ruinosas muralhas de Tróia, na Turquia, o famoso mito de Aquiles. O guia coça a cabeça, estranhando as minhas vagabundas geografias, e limita-se a levar-me à “El Crédito Cigar Factory”, perto da esquina da Calle Ocho com a 11th Avenue, onde meninas e senhoras de beatos costumes enrolam com mãos experientes as folhas dos charutos. Portanto, nada de coxas nem de lascivos maneios. Lá se vai o mito, para desgosto meu, tal como em Tróia, onde nem as cinzas de Aquiles, vendidas ao desbarato por um feirante turco, eram dignas de crédito.

– Todo o mito tem o seu calcanhar de Aquiles – aventa o meu guia, sorrindo.

“Pronto”, suspiro eu. “Já cá faltava a piadinha clássica.”

 

3. Na Plaza de la Cubanidad há um mapa de Cuba, esculpido em bronze, com uma frase lindíssima de José Martí: “as palmeiras são noivas que esperam.” Por trás, bandeiras assinalam o quartel-general dos Alpha 66, o mais façanhudo e duro grupo de combatentes anti-Castro. Poéticos e tesos, estes cubanos.

 

4. A hora é de almoço e a empregada cubana da “bodega” surge-me em morena silhueta de doce tropicalidade. Pergunta-me:

– O que vai desejar?

– Diga-me antes qual é a especialidade da casa.

– Temos “moros y cristianos”.

– Todos no mesmo prato? Não sei se resulta.

– Os outros clientes não se têm queixado.

 

5. “Welcome to Calle Ocho”, leio, em espanglês, num cartaz à entrada da SW 8th Street enquanto espero pelo guia. Mesmo sem as explicações dele, dá para perceber que a Calle Ocho é a artéria principal de Little Havana e o coração sentimental desta comunidade exilada. Há de tudo por aqui – até as “Stars of Calle Ocho”, uma versão hispânica do Passeio da Fama de Hollywood. Rocío Dúrcal, Sammy Sosa, Julio Iglesias, Gloria Estefan – todos têm uma estrela que é pisada e repisada pelos muitos turistas e locais que passeiam diariamente pela Calle Ocho.

 

6. O meu guia aparece, finalmente, ao volante de um velho cadillac descapotável. Vem acelerado, com explicações confusas e duas meninas a bordo. São sobrinhas, diz-me (o tom é vago), estão atrasadas, é preciso levá-las à missa da tarde, deixá-las à porta da igreja. Não me importo – gosto de gente de fé e ciosa dos seus deveres religiosos. Mas, no banco do pendura, dou de caras com um anúncio suspeito de cabaret: “Del crepúsculo al amanecer, mambo caliente con Hello Titty y Miss Serpentine”. E as duas, atrás, com indisfarçáveis olheiras das longas noites de “mambo caliente”, soltam gritinhos histéricos, esperneiam-se com impaciência, não querendo chegar atrasadas à santa missa. E lá vamos nós, eu e o meu guia, acelerando pela Calle Ocho, com o sagrado e o profano à boleia.

 

7. A sul da Calle Ocho, junto do Memorial à Brigada 2506, encontro Manuel Gutiérrez que, de gabardina, chapéu preto e óculos escuros, me segreda:

– Sou um cubano contra-revolucionário. Já fui agente da CIA

– Eu fui sócio do Círculo de Leitores.

– Não se preocupe. A vida é assim mesmo, feita de loucuras.

 

8. “Comandante Che Guevara”, suspira o velho Santiago com a alma enevoada pela memória de outros tempos – tempos de revolução e de camaradagem nas montanhas de Sierra Maestra. Santiago conheceu Che Guevara ao som de uma metralhadora Thompson, rá-tá-tá-tá-tá, toma lá chumbo, tal como nos filmes de gangsters. Foi Santiago quem ensinou a Che a arte da guerrilha. Eram jovens e queriam mudar o mundo, a começar por Cuba. Depois vieram os excessos revolucionários, os devaneios socialistas, Che Guevara morreu e Fidel Castro foi cofiando a sua barba cada vez mais autoritária. Santiago foi preso, torturado, cuspiu na má sopa que lhe serviram, riscou os dias, os meses e os anos nas paredes do calabouço, perdeu amigos, família e dentes até que um dia se pôs a ler O Conde de Monte Cristo e ousou empreender uma fuga de Cuba tão audaciosa quanto a de Edmond Dantès do Castelo d’If. E aqui está ele agora, longe das aventuras guerrilheiras de Sierra Maestra com o comandante Che Guevara, a ensinar enfadonhos turistas como eu a jogar ao dominó “double-9”, no Parque Máximo Gómez de Little Havana, a troco de alguns dólares.

– Por vezes, a literatura salva-nos – observa Santiago, piscando-me o olho.

– Por vezes, também nos condena – sentencio com gravidade. E não acrescento um palavrão, porque é proibido dizer “malas palabras” neste parque.

 

9. “There’s a fire in Little Havana / Flame so hot you can’t stand it”, canta Paula Abdul, em ritmo de salsa, no rádio do velho cadillac. E Little Havana vai ficando para trás, quilómetro após quilómetro, num pôr-do-sol de vermelho incandescente que deixa o bairro em fogo como na letra da canção – uma chama urbana tão quente, tão tropical, que nos inquieta a alma. O meu guia segue ao volante, com uns pavorosos óculos Ray-Ban, perscrutando novos destinos; eu espreguiço-me no banco ao lado, com um temível charuto aceso, fumando as últimas lembranças de Little Havana. Vamos à procura de outras vidas, de outros ritmos, pelas ruas de Miami.

Escrito por Fernando Chambel

10/12/2010 em 22:05

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Gosto do outdoor da intimissimi que o velhinho das castanhas assadas, à porta do meu trabalho, tanto elogia. Faltam-lhe dois dentes, mas o sorriso corre-lhe doce na cara como a brisa nos campos em flor. Poético, este meu velhinho.

– Poético é o cartaz, sô doutor. E tome lá esta dúzia delas bem quentinhas por conta da menina.

Cá, no trabalho, todos agradecem à intimissimi.

Escrito por Fernando Chambel

10/12/2010 em 16:10

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Little Havana, Miami. November 25th, 2010. Santiago escreve-me do exílio que lhe sara a alma em fim de vida. Manda-me um postal a desejar um Feliz Natal. É simpático, Santiago. Já ninguém me manda postais de Natal. É moda antiga. Coloco o postal na estante, com carinho, ao lado de uma edição antiga de O Conde de Monte Cristo e pisco o olho, de longe, a Santiago. Santiago compreenderá.

Escrito por Fernando Chambel

06/12/2010 em 22:15

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Era indisfarçável a curiosidade com que observavas, na carruagem do metro, um casal de namorados que nada tinha de interessante, ele vestia uma camisa aos quadrados e ela não acertava na cor dos sapatos, mas havia uma música de fundo, tocada em ritmo de esmola, que lembrava uma Viena em valsa, entre a estação da Ameixoeira e a do Senhor Roubado. Era o ceguinho do acordeão quem assim tocava, deixando no terno olhar dos namorados aquele cadente tom de valsa de que tu tanto gostavas. E era bem possível que, no entusiasmo do momento e numa inquietude apaixonada, também quisesses valsear. Mas eu suava, adiava e lia-te Wittgenstein – um filósofo muito oportuno para quem, como eu, não sabia dançar. E, antes que te assomasse novo desejo por modinhas de Viena, dei 2 euros ao ceguinho, que lá seguiu o seu caminho, acordeonando a balalaika.

Escrito por Fernando Chambel

04/11/2010 em 19:45

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Brilhante estreia, ontem à noite, no canal FOX, da série “The Walking Dead” (ainda que o 1.º episódio tivesse tido menos 13 minutos do que a versão americana). Resumidamente, um polícia acorda de um coma prolongado e vê-se num mundo apocalíptico, infestado por mortos-vivos. Excelente parábola televisiva à atual crise civilizacional. Importa é saber se ainda pertencemos corajosamente ao mundo dos vivos ou se caminhamos lentamente entre os mortos.

Escrito por Fernando Chambel

03/11/2010 em 10:30

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As tardes cálidas de julho eram passadas no chão, repousando a tua intimidade sobre a esteira – e lias a “Obra Aberta” de Umberto Eco, dizias-me. E eu, muito semiótico, olhava-te em silêncio, perdendo-me nesse jogo lânguido de sinais com que desafiavas o meu desejo.

Escrito por Fernando Chambel

02/11/2010 em 12:23

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