ZAPPING

E há melhor maneira de terminar um blog?

Escrito por Fernando Chambel

26/10/2011 em 21:04

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Amanhã, o bom Baptista-Bastos e o seu intelectual papillon falarão de Fialho de Almeida, na Sociedade Portuguesa de Autores. Diz o texto do convite que “Fialho de Almeida é um ser luminoso e cheio de sombras, que apreciou viver entre o imediatamente visto e a transcendência do que não é percetível”. Eu, sempre que leio coisas destas, fico deleitado, de cigarro perdido nos lábios, tentando decifrar o enigma das antíteses. Um amigo meu, pelo contrário, espuma da boca impropérios, porque, como ele diz, para palavras indecifráveis, já bastam as de Jorge Jesus quando explica a profundidade da filosofia tática do Benfica. Talvez tenha razão. Afinal, é ele quem bebe, todos os dias, o verbo sacro dessa bíblia que é o jornal “A Bola” enquanto eu, herege, prefiro me perder, em tardes de outono, nas deambulações existencialistas de Jean Paul Sartre. Mas, pelo sim, pelo não, passarei pelo n.º 31 da Av. Duque de Loulé, porque gosto de ouvir falar o Baptista-Bastos e porque se trata de uma justa homenagem ao célebre contista e cronista panfletário, agora que passam 100 anos sobre a sua morte.

Escrito por Fernando Chambel

24/10/2011 em 10:34

Na categoria Zapping

1. Linha de Vendas Novas: mais uma via-férrea que fechou à circulação de passageiros, no troço entre o Setil e Coruche. A ideia de revitalizar a linha e de levar o transporte ferroviário aos concelhos da região até tinha sido boa. Corria o ano de 2009. Houve assinatura de protocolo, entre a CP e várias câmaras municipais, vieram os apertos de mão, falou-se nas virtudes do serviço público e projetou-se o futuro. Dois anos depois, o futuro morreu num curto anúncio, em forma de lápide, afixado em todas as estações do trajeto. A CP pedia imensas desculpas, mas a partir de 1 de outubro, já não haveria comboios para ninguém. Feitas as contas, o serviço registara uma média de 16,9 passageiros, por comboio, entre setembro a dezembro de 2009; de 14 passageiros durante 2010; e de 13,5 passageiros entre janeiro e junho deste ano. Além disso, o custo por cada passageiro transportado tinha sido de 16 € para uma receita de apenas 1,5 €. É cruel a verdade nua das estatísticas e das despesas e a CP não quererá, decerto, chatear os senhores da troika!

 

2. Vários curiosos e entusiastas do caminho-de-ferro registaram a data: 30 de setembro de 2011, dia do último comboio para Coruche. Vieram do norte e do sul de Portugal para se reunirem na estação do Setil e fazerem a derradeira viagem. Não contavam, no entanto, com a crueldade do verão, que tarda em findar. Estavam 32º C, um calor de “derreter os untos”, como diria o Eça. A paisagem em redor também não ajudava. O Setil é um ermo quase abandonado, no entroncamento da linha do Norte com a linha de Vendas Novas. Já teve as suas glórias passadas e a sua conta de aguadeiros que, às janelas das carruagens, apregoavam “Água fresca!”, em pequenas bilhas de barro que faziam as delícias dos passageiros acalorados. Agora não passa de um lugarejo, com uma população parca e envelhecida e com uma estação que vai caindo aos bocados, em triste abandono. Mas eis que o comboio apita, com destino a Coruche.

 

3. Entre o Setil e Muge há a vasta planura da lezíria ribatejana. Os campos são férteis e o comboio segue veloz. Breve paragem no apeadeiro do Morgado, onde um casal de velhos agricultores discute, com afincado suor, a falta de jeito que tanto um como ou outro têm para carregar as hortaliças. E já se avista a ponte Rainha D.ª Amélia sobre o rio Tejo. É uma obra de engenharia com história, do tempo em que ainda havia reis e rainhas em Portugal. Chegou a ser uma das pontes ferroviárias mais compridas da Península Ibérica, com 840 metros de tabuleiro metálico – uma proeza que deu direito a louvor pelo Conselho Técnico de Obras Públicas, em 1904. Agora está convertida à circulação de automóveis e à pressa de se alcançar a outra margem. Mas o comboio também não pára e atravessa uma nova ponte, construída mesmo lado. É de betão e sem cor, eficiente e sem natureza própria, como manda a modernidade.

 

4. Estação de Muge. Há passageiros, mais entusiasmados, que saltam, como crianças, para a beira da gare. Querem tirar a derradeira fotografia. E o maquinista coça a cabeça, ante tamanho alvoroço, dá um último apito e grita aos que ainda tropeçam de máquina na mão: “Olhem que me atrasam o comboio!”. E há sorrisos e compreensão entre todos. Sabem que o comboio vai acabar, que as estações deixarão de ter gente, de ter vida, e que a memória futura será apenas a de uma fotografia, perdida num qualquer sótão ou vão de escada, à espera que um dia sejam outras gerações – talvez os filhos, talvez os netos – a reencontrá-la, com a surpresa com que se descobre os encantos do passado.

 

5. O conforto das automotoras elétricas da série 2240 é de louvar. Têm ar condicionado, bancos individuais, casas de banho higiénicas e uma voz feminina, aveludada, que anuncia as estações. Só é pena que as janelas não abram. Recordo, com saudade, a minha infância, em comboios que gingavam linha fora. Abríamos a janela e farejávamos o aroma dos pinhais e a fuligem dos carris. E o vento – havia o vento, risonho, que batia na cara e nos levantava o cabelo. E, no destino, havia a terna avó que sempre nos esperava com um beijo babado e nos mimava com pêssegos da horta, escondidos no regaço. Hoje, a modernidade é feita de maior conforto, mas também de isolamento – e lá vamos nós, fechadinhos no comboio, devidamente refrescados, enquanto a soalheira paisagem passa, fugaz, pelos vidros das janelas.

 

6. Estação de Marinhais. Estação antiga, também de reis e de rainhas. D. Carlos inaugurou-a, em 1902. E, nas suas paredes brancas, ainda se mantém aquele velho desacerto ortográfico: “Marinhaes”. Era para aqui que vinha também o absoluto D. Miguel, em reais caçadas de veados pela Tapada, enquanto rosnava impropérios aos tempos liberais. Ao lado da estação há um pequeno parque de estacionamento, onde os passageiros deixam os carros à sombra estreita de uma árvore. Cumprimentam-se todos à partida e à chegada, dizem olá, uma palavra amiga, falam do tempo, falam da vida e gargalham anedotas. São traços de uma familiaridade que ainda é possível encontrar na província. Já em Lisboa, passo os dias a andar no metro e é rara a alma que me diz bom-dia.

 

7. A suprema ironia de um cartaz da CP, postado no comboio que faz a sua última viagem: “Vá de comboio. O ambiente agradece.” A partir de agora só poderei voltar a Coruche de automóvel ou de autocarro e a menina do cartaz há de um dia pedir-me contas sobre a minha pegada ecológica, sobre as emissões de CO2 das minhas vagabundagens. Raios, terei também de lhe esconder os meus cigarros!

 

8. Estação de Coruche. É o fim da viagem. Foram 30 minutos de comboio, do Setil até ao fértil vale do rio Sorraia. Pergunto ao revisor se há algum transporte da estação para o centro da vila. Um dos grandes problemas dos caminhos-de-ferro, em Portugal, é este – o de ter estações longe das localidades e de nem sempre haver um outro transporte público que faça a necessária ligação. O revisor torce o nariz e explica-me que, de vez em quando, é possível apanhar um táxi. Apeio-me na estação e táxi nem vê-lo. Respiro fundo, ganho coragem e sigo a pé, de mochila às costas, pelas margens do Sorraia até avistar uma encantadora esplanada junto à praça de toiros de Coruche. A mioleira arde-me de tanto calor e abanco na esplanada, derreado. São quatro e meia da tarde – hora de uma tentadora Coca-Cola. Mas light, não! Deixemo-nos, para fim de viagem, de mariquices dietéticas.

Escrito por Fernando Chambel

04/10/2011 em 11:17

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Jorge Silva Melo encena-se a si próprio, na Culturgest. São quatro conferências, em que toma como mote um verso de Boris Vian (Je suis snob) e parte à desfilada, como um cavalo sem freio, num galope crítico sobre quem não gosta. E não gosta dos críticos, não gosta mesmo. A curiosidade por esta primeira conferência foi tanta, ontem à tarde, que a organização teve de mudar a assistência do pequeno para o grande auditório. E Jorge Silva Melo não se fez rogado, malhou nos críticos de teatro e nos críticos de cinema e lamentou o suicídio da crítica que foi descendo-descendo-caindo-caindo até ser enteada do marketing, copy-paste dos press-releases e, sobretudo, silêncio, silêncio e estrelas qualitativas. E não faltaram estórias do passado, a apimentar a conversa. Estava longe de imaginar, por exemplo, que José Eduardo Moniz tinha sido, em 1974, crítico de teatro do “Diário Popular”, e, supostamente, dos bons, antes de se aventurar nos meandros do poder da comunicação social. E houve outros miminhos, (ex)citações da sua enciclopédia artística atiradas à maralha: os críticos são como os eunucos num harém: sabem como se faz, veem aquilo todos os dias, mas são incapazes de o fazer. A dada altura, ainda pensei que saltasse da plateia um crítico mais enfurecido que, num desvario queirosiano, puxasse do navalhão e quisesse beber o sangue ao Melo. Mas ficou tudo quietinho, tudo muito civilizado e uma senhora, a meu lado, ainda retocou o pó-de-arroz que lhe mumificava o rosto. O encenador (e realizador e tradutor) promete mais três conferências: dia 10 de outubro (“Não gosto de programadores, não sei o que fazem”); dia 17 de outubro (“Não gosto de ministros, secretários, chefes de gabinete, vereadores, assessores, diretores-gerais e em geral”); e dia 7 de novembro, num prometido happy ending (“Gosto de atores, ai de mim”). Jorge Silva Melo não é consensual, cultiva amores, desamores e ódios de estimação, por vezes com fina ironia, outras vezes resvalando para a má-língua. É aquela espécie de tio truculento que deixa toda a família em pânico ao jantar, cuspindo na sopa os eternos desassossegos que lhe vão na alma.

Escrito por Fernando Chambel

27/09/2011 em 11:09

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E, ontem, nova voltinha pela Fnac do Chiado, atuava a banda de uma malta estremunhada, com ar de quem confundia as horas da tarde com as da madrugada, fixei o nome (“Tiguana Bibles”), mas não fixei o ruído e andei, em passinho incerto, de estante em estante, à procura de novidades mais literárias e lá estava, finalmente, a edição portuguesa de V., de Thomas Pynchon (uma obra magistral!, só vos digo), mas a grande surpresa da tarde estava à entrada do espaço infantil, era a coleção “Os Cinco”, e nada de confusões com títulos mais recentes, muito ao género do canal Panda, como Os Cinco e o Caso dos Piratas de DVD (em edição esgotada pelos agentes da ASAE), não, nada disso, são os títulos mais clássicos e mais canónicos, que fizeram as nossas delícias, nos anos 70 e 80, como Os Cinco na Ilha do Tesouro, publicados então pela Editorial Notícias (quem não se recorda?) e agora recuperados pela Oficina do Livro e, olhem, passem por lá, sempre poderá ser uma ótima prenda de Natal, ofereçam aos filhos, aos sobrinhos ou aos netos ou até a gente mais graúda, como eu, que se pela por estas nostalgias de infância.

Escrito por Fernando Chambel

20/09/2011 em 10:45

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Lia as páginas dos jornais e perguntavas-me, amiúde, o que me prendia tanto a atenção e eu espreguiçava-me, fazia um gesto vago e gaguejava-te mil e um assuntos sem falar na Angelina Jolie e na sua nova campanha publicitária. Temia pela tua sanidade e pela minha conta bancária. Mas agora reconheço que todo o esforço foi em vão. Sobre a mesa da cozinha jazem dois bilhetes para o Cambodja e eu já receio o pior. Imagino-me, em suor, a seguir-te pela selva cheia de urticária, tu, sempre fresca, sempre airosa, bebendo chá com os indígenas e eu, em desalento, infestado de mosquitos, carregando sobre o lombo o peso chique da tua Louis Vuitton.

Escrito por Fernando Chambel

13/09/2011 em 11:35

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E o final da tarde de hoje trouxe Sérgio Godinho à Fnac do Chiado. 40 anos de canções para celebrar e um novo disco para ouvir. O público foi muito – demasiado até para um espaço tão pequeno. Havia os habituais revolucionários desajeitados e as sintomáticas Margaridas da literatura light, mas todos se renderam, num forte aplauso, ao músico que gosta de olhar a sociedade em volta e de cantá-la nas suas idiossincráticas entrelinhas.

Escrito por Fernando Chambel

12/09/2011 em 20:30

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Estação de Cantanhede. O abandono é notório e vegeta entre os carris. O relógio já não dá horas e não passa de um buraco imenso, onde o tempo parou. A figura zelosa do chefe da estação é apenas um fantasma e o seu apito estridente há muito que deixou de anunciar a partida dos comboios. Tudo o que resta é o vazio da gare e o som acalorado das cigarras. A estação pertencia ao ramal da Figueira da Foz. Eram 50 km de via-férrea que ligavam a foz do Mondego à Pampilhosa. Ainda me lembro de fazer a viagem numa esforçada automotora que roncava linha acima enquanto um velho se banqueteava, à minha frente, com presunto e queijo e fazia estalar nos beiços uma boa pinga de vinho tinto. Mas, já nessa altura, a linha parecia ter os seus dias contados. Em 2007, ainda se fizeram algumas obras de beneficiação, com carris provenientes do extinto ramal da Lousã, mas, em janeiro de 2009, a REFER achou conveniente fechar a linha por questões de segurança. Prometeram-se investimentos avultados que a crise económica, em Portugal, tem adiado. Se algum dia o ramal voltar a abrir, aconselho os interessados a apreciarem a beleza da paisagem – e não vos falte o presunto e o queijo, mimados por beijinhos de verdadeiro tinto, como me foi recomendado pelo sábio velhinho!

Escrito por Fernando Chambel

12/09/2011 em 13:44

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Foto: Susana M. Gouveia

E ontem foi assim, apregoaram-me que seria uma noite de música cubana, no jardim do Museu de Arte Antiga, e eu fixe, fixe, vamos a isso, suando já a tropicalidade dos ritmos calientes, e sai-me na rifa uma rapaziada de tons mansos, orquestrando sonoridades de compasso recatado, e eu a olhar para os lados, desconfiado, a perguntar se estava nalgum casamento, e então os noivos? já foram de lua de mel?, e já me decidira a afogar as mágoas numas valentes cubas librés quando me anunciaram que só serviam sangria, oh, que desencanto!, rosnava eu a sós com o cigarro, há noites em que um gajo bem poderia ficar em casa, ouvindo habaneras e bebendo saudades, mas pronto, não há que desanimar, as “Noites do Atlântico” continuam em setembro e o Museu de Arte Antiga tem ainda uma exposição do Bosch que vale a pena visitar.

Escrito por Fernando Chambel

26/08/2011 em 10:37

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Cowboys & Aliens arriscava-se a ser um filme com a ideia mais desvairada deste mundo, quiçá do sistema solar ou até mesmo de todo o universo. Mas os seis argumentistas e o realizador lá se aguentaram, firmes como bons soldados de cavalaria rodeados de índios, no propósito de misturar a ficção científica com uma boa cowboyada, seguindo a novela gráfica homónima, criada por Scott Mitchell Rosenberg. O destaque vai para os grandes espaços do oeste americano, filmados com uma exuberância de panorâmicas herdada dos filmes de John Ford. Depois há algumas piscadelas de olho a outros filmes, como O Dia da Independência, e um digníssimo tributo ao imaginário de Steven Spielberg que supera aquele que J. J. Abrams tentou prestar ao mestre com o seu Super 8. A parte menos conseguida é, sem dúvida, a dos extraterrestres. Hollywood nunca mais conseguiu atinar com uma criatura alienígena de jeito desde que Ridley Scott pôs no ecrã o seu assombroso “alien”, nascido da estética necro-gótica de H. R. Giger (e que, talvez, volte a ser recuperada no anunciado filme Prometheus). Daniel Craig mantém-se duro e reservado, como já nos habituou na série mais recente e mais negra de James Bond. Harrison Ford deixou-se de cavalgadas esforçadas e heróicas e envelhece agora como o vinho do Porto, conseguindo ainda adocicar os suspiros de muito boa menina. Acrescente-se, por fim, Olivia Wilde e a desconcertante cena em que a belíssima atriz ressuscita, com toda a sensualidade e nudez, de uma fogueira apache. Bem podes roer-te de inveja, House!

Escrito por Fernando Chambel

25/08/2011 em 9:55

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Vamos nós almoçar um hambúrguer apressado ao Monumental, beber uma bica que escalda a minutos contados e encontramos, num assalto súbito à “Book House”, este miminho que nos pisca o olho, a pedir que recuperemos uma certa memória perdida na fuligem dos tempos. O livro intitula-se Pelas Linhas da Nostalgia e é da autoria de Rui Cardoso e Mafalda César Machado. São 235 páginas de passeios a pé pelas linhas que a CP foi abandonando ao longo dos anos. Feitas as contas, Portugal perdeu, nos últimos 25 anos, mais de 700 km de vias-férreas, como a do Sabor ou a do Corgo, desativadas em nome de uma nova gestão que tarda em encontrar o rumo certo. Agora há estações abandonadas, como a do Romeu, onde só os cães ladram, e carris engolidos por silvas e giestas para gáudio das cabras. Linhas há, no entanto, que foram transformadas em ciclovias, graças a iniciativas camarárias. E é esta memória coletiva do país que o livro ajuda a recuperar, através de fotografias e textos que nos prendem a atenção linha a linha, vereda a vereda, trilhando montes e vales. A edição é da Afrontamento e remonta a 2008. Infelizmente, só a descobri agora – o que me lembra os crónicos e saudosos atrasos com que os comboios impacientavam a minha infância.

Escrito por Fernando Chambel

22/08/2011 em 15:48

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1. No último sábado de cada mês, a Fundação Portuguesa das Comunicações organiza uma visita guiada pelo velho bairro da Madragoa. É só deixar a preguiça em casa, pegar numa mochila e numa máquina fotográfica e aparecer, por volta das 10H30, no Museu das Comunicações, para um pequeno introito sobre aquele bairro, em jeito de vídeo documental.

 

2. O passeio começa no largo Vitorino Damásio, onde, em séculos idos, se situava a praia de Santos, com os seus pescadores e batéis arrastados pelas águas do Tejo. Vem-me à memória O Velho e o Mar, do Hemingway, com Santiago navegando em sonhos de peixes batalhadores, puxados à linha. É assim que imagino os velhos pescadores da Madragoa, na sua faina diária com o rio, mas talvez a minha imaginação esteja povoada por demasiados livros. A vida na antiga Madragoa era de uma pobreza extrema e de grandes sacrifícios. Definitivamente, tenho de cortar na literatura – esse vício maldito!

 

3. Ao fundo do largo Vitorino Damásio, ergue-se o edifício do Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (IADE), com as suas fachadas de obscena modernidade. Em Santos, já não há pregões nem varinas – nem mesmo magotes de lisboetas rumando ao Tejo, para banhos de pequena burguesia. Toda a zona foi rebatizada com o pomposo nome de “Santos Design District”. Há agora moda, arquitetos e artistas. Já tive o prazer de passar por aqui à noite – fumava-se erva e ouvia-se um DJ que riscava vinis com muita pinta!

 

4. Duas versões para o nome Madragoa. Como tudo o que é bem português, a origem do topónimo vacila entre uma memória de devassidões laicas e um recato de unções religiosas. A primeira versão lembra-nos que, na Madragoa, existia uma zona de prostituição e que o nome do bairro poderia ter surgido do uso recorrente da mandrágora, uma planta afrodisíaca utilizada em conjuros, elixires e filtros eróticos na Idade Média A segunda versão aponta para um Hospício das Madres de Goa, de piedoso auxílio às gentes do bairro e que existiria na rua com o mesmo nome. Ainda assim, entre prostitutas de alterne e madres de altar, a Madragoa soube erguer o seu nome entre os bairros de Lisboa.

 

5. Igreja de Santos-o-Velho. Dizem os Anais que se trata de um templo muito antigo, reedificado pelo façanhudo D. Afonso Henriques após a conquista de Lisboa, em 1147. Foi dedicado aos três irmãos mártires: Júlia, Máxima e Veríssimo. Tornam-se recorrentes, na mitologia da santa igreja em Portugal, estórias de martírio e de incompreensão que envolvem crianças – e sempre em número de três, como se fossem uma versão infantil da Santíssima Trindade. Basta recordar também a estória dos três pastorinhos de Fátima, ligada ao culto mariano, e a construção de um santuário que tem congregado multidões, em atos de fé e devoção que, muitas das vezes, transcendem a própria razão humana. Naquela manhã de sábado, na igreja de Santos-o-Velho, havia apenas um batizado e as gentes da Madragoa vestiam os seus melhores fatos.

 

6. Eis-nos no Palácio do Marquês de Abrantes. Antigo Convento das Comendadeiras, foi transformado em Paço Real, no tempo de D. Manuel I. Foi nele que o teatreiro Gil Vicente apresentou alguns dos seus autos e foi dele que saiu D. Sebastião para sempre se perder numa manhã de nevoeiro e não mais voltar. Os franceses, que se pelam pela arquitetura monárquica (ainda que se digam republicanos), compraram o edifício, em 1911, para instalarem a sua embaixada. E, ainda hoje, aquela gente das Gálias envia telegramas de Lisboa para Paris, invocando, em lirismos de Molière, a magnificência dos tetos do palácio do senhor Marquês de Abrantes.

 

7. R. da Esperança, n.º 164. Um homem à janela, em pose de cavalheiro, cumprimenta as senhoras, suas vizinhas, sonha com outros horizontes, daqueles que não se limitam à nesga clara do Tejo que avista, pega num hidroavião, convence um amigo a segui-lo, toma a rota do Atlântico sul e chega ao Brasil. A Madragoa bem pode orgulhar-se deste aventureiro português. Aliás, ainda lhe preserva a porta, a janela, toda a fachada do prédio. Aqui viveu Gago Coutinho durante setenta longos anos e era com esta morada que terminava todas as suas cartas aos amigos: “Lisboa – Madragoa – Esperança 164”.

 

8. O seiscentista Convento das Bernardas, com a sua imponência branca, raiada pelo sol da Madragoa. Já foi lugar de recolhimento de mulheres penitentes e convento de religiosas Recoletas. Agora é museu de marionetas. Presa ao expositor está a irrequietude dos Bonecos de Santo Aleixo. Mas o que mais me salta à vista e à memória são as marionetas de sombras balinesas, chamadas “Wayang Kulit”, que me preencheram alguns serões passados naquela ilha da Indonésia. E lá ficava eu, sentadinho no meio de uma multidão de hindus, assistindo às épicas representações do Ramayana e do Mahabharata, sem perceber metade do que aquelas sombras diziam. Entre Bali e o Convento das Bernardas há toda uma geografia de errâncias, de constantes aprendizagens e de longitudes sentimentais. Enfim, uma geografia muito minha!

 

9. E há quem cante, em jeito de moda antiga: “Fui varina neste bairro, trouxe canastras cheiinhas de peixe fresco e dourado!  Fui varina deste bairro, conheço as ruas, as esquinas do meu bairro bem-amado!” E o canto ecoa nos claustros do Convento das Bernardas, fazendo estremecer a matutina sonolência da minha alma. Danadas para a cantoria, estas mulheres da Madragoa!

 

10. Lavadouro da Madragoa, também conhecido como o das Francesinhas. O que mais impressiona é o toque da pedra dos tanques, amaciado por 135 anos de muita esfrega e de água com sabão. Ouvi uma vez a tia Olívia dizer, num documentário da Rádio Renascença, que “aqui lava-se de manhã a branca. À tarde lava-se a de cor. A partir de quarta-feira, das duas horas em diante, lava-se passadeiras das mais limpas. E depois de quinta, começa-se a lavar carpetes”. São gestos diários, cansativos, que vergam as costas destas lavadeiras da Madragoa. Ao contrário do que se possa pensar, este lavadouro municipal não está em vias de fechar. A crise económica alastra-se por Lisboa, a “5 à Sec” já não está ao alcance de qualquer bolsa, as pessoas fazem “contas de sumir” e há quem retorne à Madragoa com a roupa para lavar.

 

11. Chafariz da Esperança, projetado pelo arquiteto Carlos Mardel, em 1752, e concluído dezasseis anos depois. Aqui termina o passeio pela Madragoa. Os organizadores passam-nos um papelinho, em jeito de cumplicidade, e todos nós nos fixamos num excerto de As Farpas, de 1871, escrito por Eça de Queirós. Reza assim: “O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carateres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual parada. […] A ruína económica cresce, cresce, cresce. As falências sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. O país vive numa sonolência enfastiada. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!” E, de repente, trazido pela brisa do dia, pareceu-nos ouvir aquele riso muito irónico, muito queirosiano, de quem contempla do alto do seu monóculo crítico este país com mais séculos de história do que de juízo.

Escrito por Fernando Chambel

03/08/2011 em 11:40

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Em resposta ao meu post sobre o fim do “space shuttle”, T. J. enviou-me esta foto publicada pela “National Geographic”. Por vezes, a beleza de um momento revela-se mais neste pequeno ponto azul-claro, que é a Terra, do que em órbitas elípticas que rasgam o imenso manto escuro dos céus. Kepler, Galileu e Newton também sonhavam com estas brumas, donde se ergueriam, um dia, majestosos objetos de ciência humana, rumo à conquista do espaço.

Escrito por Fernando Chambel

27/07/2011 em 14:15

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O “space shuttle” fez hoje a sua última viagem, de regresso à Terra – talvez para se tornar, de futuro, numa memorável peça de museu. Longe vai a manhã de 12 de abril de 1981, em que, ainda menino e moço, fiquei colado à maratona televisiva do primeiro lançamento do Columbia, sabiamente comentada por Eurico da Fonseca, o homem que ajudou várias gerações de portugueses a compreender a conquista do espaço. Naquela infância dos dias, eu e os meus amigos vivíamos empolgados com as aventuras do “Caminho das Estrelas” e do “Espaço 1999” e fazíamos experiências com pequenos foguetes que resultavam em medonhas explosões, para desespero dos nossos pais. Hoje é o fim de uma era, mas, como dizia Carl Sagan, nós somos viajantes errantes desde o princípio dos tempos. Teremos Marte, teremos Júpiter e a cintura de Oríon pela frente. Teremos a vastidão dos anos-luz e a beleza da matéria de que os sonhos são feitos.

Escrito por Fernando Chambel

21/07/2011 em 13:07

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Só ao terceiro dia ousaste confessar que eras criacionista. E havia aquele quadro que, nas horas lentas das carícias, emoldurava a cabeceira da tua cama…

Escrito por Fernando Chambel

20/07/2011 em 16:12

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Para quem gosta de viagens e de banda desenhada há, a partir de hoje, um doce crocante à venda em qualquer banca do país e prontinho a lambuzar-nos com percursos e personagens do nosso imaginário. Trata-se da coleção “Rotas e Percursos”, do jornal “Público”. São sete guias urbanos que têm a particularidade de serem ilustrados por grandes nomes da banda desenhada mundial. O primeiro volume leva-nos em aventuras pelas ruelas de Veneza, na cúmplice companhia de Corto Maltese. O segundo faz-nos cativos da história e da monumentalidade de Roma, partilhando as deambulações de Alix. Haverá depois Nova Iorque, a verde, Florença, a renascida, e Marraquexe, a dissimulada. A coleção terminará com os mistérios de Praga e com as fantasias de Bruxelas. Cada volume custa 8,90 € (pouco mais do que 2 maços de cigarros e o equivalente a 15 bicas madrugadoras). Se a Moody’s fosse uma agência decente e com bom gosto, daria a esta iniciativa a classificação “Aaa”. Um ótimo investimento de verão, ao sabor da imaginação.

Escrito por Fernando Chambel

13/07/2011 em 9:30

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Foto: Susana M. Gouveia

E foi assim, ontem à noite, no largo do teatro de São Carlos: orquestra sinfónica portuguesa e coro do teatro de São Carlos. Composições de Richard Strauss, Arrigo Boito e John Williams (com o incontornável tema musical da “Guerra das Estrelas”). O final foi glorioso, com o Prelúdio “Inno del Sole”, de Pietro Mascagni. Hoje repete-se o espetáculo, às 22H00. Façam o favor de ir cedo para arranjar lugar. Desleixei-me num opíparo jantar e quase que ficava condenado a ouvir as constantes passagens do elétrico 28, a chocalhar turistas Chiado acima.

Escrito por Fernando Chambel

08/07/2011 em 13:56

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Pela quantia de 33 €, tem agora a oportunidade de matar o FMI. Tenho dezenas de amigos que, ao saberem da notícia, já entraram em lista de espera. Eu também já preparei uns pozinhos de arsénio, mas, para arranjar 33 €, tenho de ir primeiro assaltar velhinhas beatas à porta da Igreja de São Domingos, como é meu hábito em alturas de crise. A ideia é participar num jantar-mistério, promovido pela Bode Expiatório, uma empresa especialista em estórias interativas, onde a vítima é o FMI. Aos comensais cabe a árdua tarefa de descobrir, entre pratos alsacianos e “crème fraîche” com queijo branco, quem foi o assassino. Este jantar-mistério realiza-se todos os sábados, às 20H30, no restaurante Storik, na rua do Alecrim, ao Chiado. Bom para exorcizar ódios de estimação. E é melhor não levar a sogra – pode enganar-se na vítima!

Escrito por Fernando Chambel

06/07/2011 em 13:39

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Tiago Moreira Ramalho, no seu blogue “A Douta Ignorância”, diz que “perguntar sobre os livros que se leu é perguntar sobre conquistas amorosas ou contas bancárias”. Bem… o que posso eu dizer mais? Andei a ler, no vagar das férias, um livro sobre uma unidade secreta de operações assassinas da Mossad e qualquer semelhança com algumas ex-namoradas não é pura coincidência. “Mossad – Os Carrascos do Kidon”, de Eric Frattini, é um livro que tenta sistematizar algumas atividades clandestinas dos serviços secretos israelitas, através de assassinatos seletivos perpetrados pela sua unidade de elite, o Kidon (reveja-se, a título de exemplo, o filme “Munique”, de Steven Spielberg). Contudo, se compararmos o filme de Spielberg e o livro de Frattini com outros dois títulos, entretanto editados (“Mossad – Os Segredos da Espionagem Israelita”, de Victor Ostrovsky, e “Os Espiões de Gedeão”, de Thomas Gordon), rapidamente constatamos que há discrepâncias nos relatos de algumas dessas operações clandestinas. A verdade é que a espionagem e a contra-espionagem continuam a ser mundos de sombras… como algumas conquistas amorosas… como algumas contas bancárias.

Escrito por Fernando Chambel

30/06/2011 em 13:49

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Domingo de esturra, com previsões de quase 40º C ao sol. Lisboa anda entretida em banhos de mar e, nas ruas, só restam turistas a fotografar memórias. Tentam-me com uma participação num desfile exótico, ciclistas a pedalarem nus pela cidade, mas sou um rapazinho pouco dado a estas manifestações púbicas, perdão, públicas sobre duas rodas e prefiro refugiar-me à sombra das arcadas da Praça do Comércio, onde espero encontrar a guia do “Lisbon Walker” para me mostrar a Lisboa do terramoto de 1755.

 

 

 

O passeio começa com a estátua de D. José I a contraluz e o Tejo correndo tépido para lá do Cais das Colunas. Estamos em plena Praça do Comércio, outrora Terreiro do Paço (dito Real), e a guia fala-nos da fatídica manhã de 1 de novembro de 1755, em que um terramoto de magnitude 9, na escala de Richter, abalou a cidade de Lisboa, deixando toda a Baixa em ruínas. O que não caiu foi consumido por um vasto incêndio (era Dia de Todos-os-Santos e havia milhares de velas acesas nas igrejas e nas casas das pessoas). Como se já não bastasse esta tragédia, sobreveio das águas do Tejo um tsunami que engoliu a multidão em pânico que se tinha refugiado junto ao rio. A cidade contava, à altura, com 275 mil habitantes. Morreram cerca de 15 mil. Logo se espalhou a notícia de que Lisboa tinha sido atingida pela fúria divina, por mal dos seus pecados. Curiosamente, uma das poucas zonas que escaparam ao terramoto foi a do Bairro Alto, com as suas prostitutas e lupanares. Não deixo de observar à guia que, por vezes, Deus tem uma maneira muito própria, muito ínvia, de escrever direito por linhas tortas.

 

 

 

Foto: Inês B. Alves

Para que conste em memória futura, a nossa guia chama-se Rita Prata, aligeira-nos o peso de toda esta tragédia histórica com um sorriso jovial, cita Kant e Voltaire, sob um sol abrasador, e fala do Iluminismo e de outras coisas sábias. Sou uma alma sensível, suada pelo calor da tarde, e pessoas assim impressionam-me. Seguimos-lhe os passos pela Baixa pombalina, detemo-nos em pormenores arquitetónicos da reconstrução, descobrimos igrejas escondidas em edifícios insuspeitos, rumamos a antigas fábricas de salga romanas, invadimos cafés de esquina em busca de água fresca, evocamos o passado maldito da igreja de São Domingos e terminamos no Rossio, onde é costume os lisboetas se encontrarem e reencontrarem com as alegrias e as tristezas da sua História. São duas horas de passeio que passam rapidamente. Há outros passeios temáticos, promovidos pelo “Lisbon Walker” todos os domingos, e fazemos promessa de voltar. Pedala, entretanto, no empedrado do Rossio, um turista acidental, tilintando a campainha rouca da sua bicicleta, e pergunto-me onde andam os ciclistas que ameaçaram desfilar nus pelas ruas da cidade.

 

 

Eles vêm aí, eles vêm aí…

Escrito por Fernando Chambel

26/06/2011 em 19:30

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Na Monumental de Madrid éramos três: eu, tu e a lembrança de Hemingway. Até levei, num saco do El Corte Inglés, um exemplar do Verão Perigoso como cábula literária para te poder explicar a essência de uma tourada. Mas tu por ali ficaste, à sombra da bancada, com aquele olhar indefinido com que, por vezes, me trespassavas a alma e foi com o gume desse olhar que me disseste, num tom de teatralidade muito shakespeariano, que havia mais coisas entre o céu e a terra do que a minha vã filosofia ousava sonhar. Não compreendi se era uma tourada ou um desejo incerto o que esperavas ver nesse domingo de fiesta e amuei a teu lado, num mano a mano de silêncios, agarradinho ao saco e ao livro do Papá. E, estando assim a ruminar, foi-me difícil apreciar um poético capear de verónicas, chicuelinas e mariposas do grande César Jiménez que levou ao rubro a assistência, a começar por um cabrão de um velho de Navarra que atrás de nós bradava olés e nos cuspia em cima as cascas das pevides que roía com muita afición. E tu esperavas, esperavas, como se o tempo fosse mudar. E o que é certo é que mudou (eras tu adivinha?), já a tourada entardecia. Veio uma chuva miudinha que escorreu pelos teus longos cabelos e nunca te vi mais bela, mais cheia de desejo, mais certa da estocada final, mais ruiva do sangue quente, mais ébria de morte. Não eras tu, mas outra em mim, um demónio de muleta vermelha e de espada aguçada que, à saída da praça, ainda parou para me mostrar algo com que Hemingway apenas tinha sonhado: uma multidão de aficionados em delírio a abandonar a arena pela porta principal e levando da praça ao hotel o mais bravo dos matadores em ombros enquanto um arco-íris se erguia no céu e coroava com a glória das suas cores o cortejo triunfal. E foi à vista daquele arco-íris que te segredei: é lá que quero ir também, àquele lugar incerto, entre o céu e a terra. E foi com esse teu jeito tão sevilhano, tão cigano, afinal tão perigoso quanto o verão que carregava no saco, que pegaste na minha mão e me levaste ao quarto 101 de um hotel barato, na Calle de Vereda del Carmen, que não era, seguramente, o lugar incerto, entre a terra e o céu, que tanto procurava, mas que, nas desoras da cama e à luz ténue dos néons, tinha o leve traço de um horizonte de sonho donde despontava o arco-íris do teu corpo.

Escrito por Fernando Chambel

25/06/2011 em 22:14

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Moura, cidade encantada, de paredes caiadas, na planura do Alentejo que o sol fustiga.

 

 

Reza a lenda que Salúquia, a filha de um mouro governador, se atirou da torre do castelo quando soube que o seu amado morrera numa vil emboscada. 

Moura, donzela. Moura, cidade. Branca paisagem de memórias perdidas. Triste epitáfio de amores suicidas.

 

Escrito por Fernando Chambel

24/06/2011 em 19:17

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Odeceixe, Odemira, a brisa trazida pela maré.

 

 

O passo lento na areia, a impressão indelével do teu pé.

Fotos: Rita Ferreira 

Escrito por Fernando Chambel

21/06/2011 em 18:20

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São Teotónio, Zambujeira do Mar, 4 da manhã. Bom vinho, bom queijo e uma noite de luar. Num cenário de pastorícia, fumávamos filosóficos cigarros. Alguém arriscou uma posição crítica sobre Kierkegaard. Debaixo da mesa, guardávamos as armas.

(da série “Grandes Filósofos ao Serão”)

                                                                                                                                    Foto: Rita Ferreira

Escrito por Fernando Chambel

21/06/2011 em 11:30

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A revista “Time Out” de hoje traz excelentes propostas para passeios temáticos pela capital portuguesa. Desde a Lisboa mourisca à Lisboa dos Descobrimentos, passando pelo antigo Passeio Público e pelos locais ligados ao assassínio de D. Carlos I, os interessados têm muito por onde escolher. Podem também conhecer as lendas e os mistérios que envolvem a capital, recordar, pelas ruelas do Bairro Alto, as grandes estórias do jornalismo português e visitar cafés e hotéis que fizeram as delícias dos espiões estrangeiros durante a Segunda Guerra Mundial (foi no Hotel Avenida Palace, por exemplo, que decorreu uma das reuniões mais importantes para a Operação Valquíria, que visava assassinar Hitler). Alguns dos passeios realizam-se aos domingos, outros às sextas-feiras e outros ainda têm datas marcadas em junho, dependendo dos temas e dos locais a visitar. Uns são gratuitos; outros custam 10 €. Uma boa alternativa aos passeios domingueiros – e em fato de treino – pelo centro comercial Colombo ou pelo El Corte Inglés.

Escrito por Fernando Chambel

25/05/2011 em 10:45

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Ao terceiro dia, resolveu ressuscitar da estranha calma que a consumia:

– Só me convidas para lançamentos de livros.

– Tenho alguns amigos que são escritores. É difícil recusar.

– Todos falam da incerteza da palavra perante o drama da existência. E os croquetes, no final, são intragáveis. Sinto-me deslocada.

– Por vezes, os poetas são tramados. É por isso que prefiro os romancistas – sempre servem rissóis!

– Gostei mais daquele outro amigo que nos convidou para jantar. É viajado, acerta na cor das gravatas, poupa nas palavras e faz um risotto divinal.

– Virtudes de ser um assassino profissional!

Escrito por Fernando Chambel

23/05/2011 em 14:57

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A linha azul do metropolitano de Lisboa continua a ser um trajeto de grandes leituras.

– Para quando a tradução e a edição portuguesa de “Infinite Jest” do David Foster Wallace? – perguntava uma senhora a outra enquanto terminava, com literário apetite, as 640 págs. de “Os Buddenbrook”, de Thomas Mann, recentemente editado pela D. Quixote.

Depois, saíram em S. Sebastião, muito bamboleantes, muito caturras, a comprar echarpes no El Corte Inglés.

Escrito por Fernando Chambel

19/05/2011 em 16:05

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Fomos à Feira do Livro de Lisboa e sobrevivemos ao calor. Disseram-nos que também já houve dias de chuva. É possível. O tempo tem destas coisas.

 

 

 

 

 

 

 

Feira do Livro de Lisboa: em cada banca, um herói.

 

 

 

As farturas “Otário” são uma presença assídua na Feira do Livro. Lambem-se os dedos e folheiam-se os clássicos.

 

A Assembleia da República também tem uma presença marcante na Feira. Veja-se a excitação em torno dos seus últimos best-sellers.

 

 

 

É por esta e por outras que não deveriam deixar personagens da literatura infantil à solta numa Feira.

 

Este é o famoso túnel da Babel. É uma experiência única – dizem. Quem lá entra não sai a mesma pessoa. Vimos um velhinho entrar. Não saiu como novo.

 

Camaradas! Então foi logo vos calhar o stand 69? Só pode ser piada da organização burguesa e capitalista da Feira.

 

 

Preços à medida dos tempos.

 

A Mónica a mostrar aos políticos como se gere um país.

 

Dizem que os senhores do FMI foram a muitos sítios, menos à Feira do Livro. Nem tinham de ir. Livros não pagam dívidas.

 

 

 

Da Feira do Livro vê-se o rio Tejo e o senhor Marquês. Os livros não são propriamente baratos, mas a paisagem é magnífica e ainda é de borla. É aproveitar até 15 de abril.

 

 

 

Escrito por Fernando Chambel

12/05/2011 em 22:30

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A Palhota não vem nos mapas rodoviários, à semelhança do que acontece com outras aldeias avieiras à beira-Tejo. É preciso chegar ao concelho do Cartaxo e perguntar a um ou outro transeunte onde é que fica a pequena povoação. No entanto, é o ex-líbris do mundo quase perdido dos avieiros. Para a sua fama muito contribuiu o escritor Alves Redol que, no início década de 40, se instalou na aldeia, com boina e pena neo-realistas, para escrever “Avieiros”, testemunho romanceado desses ciganos do Tejo que tanto admirava. Durante quatro anos, escreve ele na introdução ao livro*, persegui-os como pude, sempre com a ajuda do impetuoso Jerónimo Tarrinca, que me levou à Toureira, uma das poucas aldeias de avieiros criadas à margem do Tejo e do mundo, e onde semeei, pouco a pouco, amizades e até devoções. Mas tão escassas horas de convívio não bastavam para saber quanto precisava acerca deles. Até que um dia consegui a promessa de viver numa barraca da Palhota, lá mais acima, perto de Valada do Ribatejo, em casa de Manuel Lobo. Setenta anos depois, naquele final de manhã, a Palhota pareceu-me um lugarejo abandonado, com as suas casas de azul coloridas entre o frondoso verde dos salgueiros – já tinha lido também, algures, que era uma aldeia de pobreza garrida e só. Não fossem algumas pequenas hortas estarem cultivadas, diria que não havia notícia de vivalma por ali. Alguns cães ladravam dos quintais. Não se viam. Ladravam apenas, como cães-fantasmas que faziam ecoar solitários lamentos pelas ruas estreitas da aldeia. Também o cais já tinha tido melhores dias – era um pontão de velha madeira, desconchavado pela falta de manutenção e com um aviso sério da autarquia para não caminhar sobre ele. E com tudo isto, tinha-me perdido no deambular do tempo. Olhei para o relógio – eram horas de voltar a Lisboa, onde ainda me esperava uma palestra sobre monumentos portugueses em Timor-Leste, dada pelo meu estimado amigo Rui Fonseca, na Academia Internacional da Cultura Portuguesa. E é assim o meu dia-a-dia, feito destas correrias e cruzando-me com geografias díspares, sempre à procura da singularidade dos outros ou, afinal, de mim próprio.

* REDOL, Alves, Avieiros, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2.ª ed., s.d., p. 16

Escrito por Fernando Chambel

26/04/2011 em 22:30

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Não creio que haja muito encanto em atravessar, a partir da Azambuja, a vasta lezíria ribatejana nuns lentos 40 km/h, tentando evitar, a custo, o atropelo das bostas de vaca que fermentam no asfalto. Guinada aqui, travagem acolá, o carro lá vai seguindo viagem, no alcanço de Lezirão – outra aldeia de avieiros esquecida nas margens do Tejo. A manhã é clara e doce e a receção é feita pelo senhor João Lobo e pela sua esposa, que cuida dos bordados. A primeira notícia que o senhor João me dá é que a aldeia não deveria chamar-se Lezirão (nome que os topográficos burocratas do distrito teimam em confundir com o de uma quinta ali perto). O senhor João anda a bater-se pela preservação da cultura avieira e defende que a povoação deveria recuperar o seu nome original de Porto da Palha (assim chamada por ter sido um porto onde se descarregava palha dos barcos para as quintas). E como é também um homem de futuro, fala-me ainda dos muitos projetos em estudo como a construção de seis cais para atracagem das embarcações dos avieiros e de um cais flutuante para embarcações turísticas. E há outros sonhos, outras ambições, talvez consigam dinheiro para limpar as margens e para reconstruírem uma casa típica de palafita e outra de artesanato local. Na hora da partida, coça o suor da testa e lembra-me, num piscar de olho cúmplice, a pesca da lampreia e do sável e as saborosas patuscadas que faz com os amigos. Deixa-me o convite para que volte – e que traga apetite!

Escrito por Fernando Chambel

26/04/2011 em 20:38

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De Salvaterra de Magos a Escaroupim são pouco mais de três quilómetros de carro, por uma estrada secundária que rasga a fértil lezíria ribatejana. Robustos tratores lavram a terra; irrequietas cegonhas picam o céu. Escaroupim é um nome estranho para se dar a uma aldeia à beira-Tejo. Telefono a um amigo: vê-me aí o nome, por favor, no “Dicionário Onomástico e Etimológico da Língua Portuguesa”, mas despacha-te, porque estou com pouco saldo e não vejo um Multibanco. O amigo é de pouca ajuda, porque Escaroupim não vem no dicionário. Enfim, sobra-me a História do lugarejo. No início do séc. XX, a fome levou os pescadores da Praia da Vieira a procurarem novo sustento nas águas do Tejo. Vinham em novembro, trazidos pela penúria. Anónimos e tímidos se achegavam às margens do Tejo. Na época de vaivém entre a praia e a lezíria, moravam nas pequenas embarcações de proa alta, quer durante a faina, quer acostados. O barco era o berço, a câmara nupcial, a oficina e a tumba, escreve Maria Micaela Soares num estudo sobre estes “Avieiros” ou “Ciganos do Tejo”*. Muitos deles acabaram por se fixar nas margens do rio, construindo pequenas aldeias sobre estacas para evitar a força das marés e das cheias. Escaroupim foi uma dessas aldeias, com as suas casas típicas, pintadas de cores vivas. Hoje, a cultura avieira resume-se a um museu e a um ou outro pescador envelhecido. Os mais novos dedicam-se ao turismo local, organizando pequenos cruzeiros no Tejo. Não há como não ficar fascinado pela beleza do lugar, pelas águas cor de prata do rio, em final de tarde, e pela quietude das verdes margens, longe do bulício de Lisboa, mas o que me dava jeito mesmo era uma caixa Multibanco.

* SOARES, Maria Micaela, A cultura avieira. Continuidade e mudança, in Separata do Colóquio “Santos Graça” de Etnografia Marítima, 1986, p. 7

Escrito por Fernando Chambel

20/04/2011 em 22:30

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Chegar a Salvaterra de Magos, vindo de sul pela Nacional 118, é dar logo de caras com a sua famosa praça de touros. Olé! Quem não se lembra de ler “A Última Corrida de Touros em Salvaterra”, imortalizada por Rebelo da Silva nos seus “Contos e Lendas”? Há um velhinho, sentado no banco da avenida, que sabe a estória de cor e que teima em contar-ma e eu lá puxo de um cigarro paciente para o escutar. Era no tempo da realeza, começa o velhinho a balbuciar, com reverência feudal, e eu a suspirar, mau, mau, temos reis e rainhas, olha que novidade, Salvaterra sempre foi estância da Família Real desde os tempos de D. Manuel I e, antes do grande terramoto de 1755, até chegaram a Salvaterra dez falcoeiros holandeses vindos de Valkenswaard, que vieram trabalhar para o Palácio da Falcoaria Real, epá, ó velhinho, já pareço o José Hermano Saraiva a falar, e o velhinho ri-se, ri-se, com o seu único dente à espreita, o que não dá jeito para comer o famoso “barrete”, o doce típico da terra, vendido a meio da avenida, na não menos famosa Cabana dos Parodiantes (que me lembra logo os saudosos e radialistas Parodiantes de Lisboa, afinal, dois dos fundadores do grupo eram de cá, da santa terrinha) e com esta conversa toda o velhinho ficou cansado e, pronto, adormeceu.

Escrito por Fernando Chambel

19/04/2011 em 22:00

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É também nas margens do rio Sorraia que se fazem grandes pescarias. Encontro uma dupla paciente, de canas em riste e de isco nas tupperwares – uma espécie de Senhor Feliz e de Senhor Contente, folgando como lagartos ao sol. Contam-me as desventuras da tarde enquanto esperam que o magano do peixe morda o anzol. Os peixes não têm hora marcada, mordem quando mordem, diz o de cá; escondem-se ali, debaixo dos salgueiros, e é o cabo dos trabalhos para os fisgar, diz o de lá; pois é, pois é, há peixes tramados e não há sermão que lhes valha, digo eu também, mas logo me calo, porque duvido que o Senhor Feliz e o Senhor Contente, apesar da sua solarenga beatitude, tenham alguma vez ouvido falar do retórico padre Vieira. E o que se pesca?, pergunto eu enquanto fotografo. Carpas, barbos, diz o de lá; algumas vezes, também fataças e bogas, diz o de cá; mas o que marchava mesmo era uma cerveja fresquinha, sugere o de lá; e se vier com uns amendoinzinhos bem torrados, até os peixes choram, diz o de cá. E eu lá pego na notinha de cinco euros para pagar a rodada ao Senhor Feliz e ao Senhor Contente. Repartem a alegria das coisas simples da vida e são de sorriso fácil, o que, nos dias que correm, é sinal de grande sabedoria.

Escrito por Fernando Chambel

18/04/2011 em 22:30

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Quase um ano depois, eis-me de regresso a Benavente, perdido nas curvinhas da Nacional 118. Terra de foral antigo, dado por D. Pelágio, em 1200, e confirmado pelo façanhudo D. Sancho I, em 1218, Benavente é um refrigério para a alma do viajante que atravessa o Ribatejo em tardes de tórridos espasmos. Gosto muito de parar o carro à saída da cidade, de beber um gole de água fresca e de fumar um ou dois cigarros enternecidos nas margens do rio Sorraia. A maré vai cheia e a corrente verga os verdes salgueiros das margens. Tudo muito bonito, tudo muito bucólico – digno de um poeta romântico e tísico, daqueles à moda antiga, que saltitavam entre repolhos de estrofes e sorviam o saudável lirismo dos campos.

Escrito por Fernando Chambel

18/04/2011 em 21:40

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Por um destes dias, passará na televisão pública a entrevista dada por Umberto Eco a José Rodrigues dos Santos. O académico italiano está mais gordo, mas mantém a fina ironia de quem aprendeu a ler o mundo nas entrelinhas. Surge a inevitável pergunta: “por que é que enveredou pela ficção tão tarde?” (Eco tinha perto de 50 anos quando escreveu o seu primeiro romance, “O Nome da Rosa”). A resposta é revelada através do inquietante dilema que assombra qualquer homem de meia-idade e a quem a vida já deu quase tudo: ou opta pelo caminho da ficção (e, consequentemente, da mentira) ou foge, muito naturalmente, para o México com uma bailarina cubana. Portanto, nada de sucumbir ao desespero literário: mesmo que falhe como escritor, o futuro afigura-se-me sempre risonho.

Escrito por Fernando Chambel

18/04/2011 em 11:10

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